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O SIGNIFICADO DE ZILDA ARNS - A HONROSA CATARINENSE.
Por volta das 11 horas de hoje, eu estava dirigindo em pleno trânsito caótico de São Paulo, ouvindo a Rádio CBN, como costumo fazer, acompanhando os constantes boletins informativos sobre a situação do trânsito. E, eis que ouço a triste notícia do falecimento da Dra. Zilda Arns, também vítima do terremoto que ceifou muitas vidas no Haiti, entre elas, a de mais onze militares brasileiros da missão pacificadora da ONU.
Não demorou muito e o jornalista Milton Jung, da mencionada emissora, por telefone entrevistou duas pessoas que, ao vivo, deram seu depoimento sobre o significado de Zilda Arns para a vida pública do Brasil, e agora, para a história do nosso país. Senti a necessidade de partilhar os dois depoimentos porque ambos resumiram o significado e o alcance maior da figura humana da médica pediatra e sanitarista. Evidentemente, não usei gravador. Guardei as abordagens feitas nas entrevistas, e as transcrevo com minhas palavras e sentimentos.
O primeiro, Francisco Whitaker, membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, que conviveu e trabalhou com ela durante alguns anos. Ressaltou dois aspectos de sua vida e atuação. O primeiro, o fato de que Dra. Zilda transcende a atuação da Pastoral da Criança e do próprio âmbito da Igreja Católica, porque ao longo dos anos, seu trabalho adquiriu uma dimensão social e política provavelmente inigualável, estendendo-se para fora das fronteiras do Brasil, em muitos países da América Latina e África. Os governos desses países, em alguns casos, de outras religiões, recorreram a ela para aplicar a mesma metodologia da Pastoral da Criança Brasileira. A competência profissional e a capacidade de diálogo da Dra. Zilda superava as possíveis diferenças e dificuldades culturais e políticas desses países e das política públicas, para centrar todo o esforço na promoção da dignidade maior do ser humano.
Aqui aparece o sentido primeiro e mais fundamental do que seja a atividade política, com “P” maiúsculo. O segundo aspecto, é a dimensão ecumênica e do diálogo intercultural do trabalho de Zilda Arns. Nascida no âmbito eclesial católico do Brasil, a Pastoral da Criança se afirmou exatamente por não fazer qualquer distinção confessional em sua atuação. Interessava, em primeiro lugar, a vida da criança, da mãe e da família como tal. Não, sem alguma dificuldade, ela enfrentou resistências mesmo dentro da própria Igreja Católica exatamente por não aceitar um ‘rótulo’ excludente e de uma pseudo neutralidade política e social. Mesmo nos países mencionados, onde a Pastoral da Criança se organizou, Zilda teve que dialogar com governos, nem sempre democráticos. Hoje, quando a Igreja e a Ordem se deparam com o fenômeno da globalização e acentuam a necessidade urgente do diálogo com as culturas e com a modernidade, frente aos novos desafios sociais, o significado de Zilda Arns torna-se uma referência, como um daqueles sinais de que tanto falamos.
O segundo entrevistado, o jornalista Gilberto Dimenstein, colunista da "Folha de S. Paulo" e da própria Rádio CBN, ainda abatido e chocado com a notícia da morte, deu um depoimento extraordinário. Era correspondente da "Folha", em Brasília, em 1983, ano em que se iniciava a Pastoral da Criança. Tornou-se conhecido e amigo da Dra. Zilda, primeiro pela sua própria função de jornalista e, posteriormente, por centrar sua atividade nas novas iniciativas de políticas públicas. Ele acompanhou, de perto, a trajetória e a expansão da Pastoral da Criança, desde o seu início. Nos primeiros contatos com Zilda, ela teria comentado que o custo real do trabalho da Pastoral, para cada criança, na ocasião, era de meio cruzeiro novo ($ 50 centavos). Daí o forte apelo para as parcerias com a iniciativa privada e, só bem mais tarde, com o governo, através do Ministério da Saúde.
A Pastoral da Criança, segundo o depoimento do jornalista, começou nos recantos mais longínquos e isolados do Nordeste, apoiado na vida das pequenas comunidades, integradas, sobretudo por mães e trabalhadoras. O método de organização social – de baixo para cima -, partindo da iniciativa e organização local de uma célula mínima, criaram uma rede de comunidades integradas pelo trabalho e treinamento dos agentes de saúde. Essa foi a ‘receita’ e o segredo da expansão extraordinária da Pastoral da Criança.
Só bem mais tarde, com o passar dos anos, é que as dioceses, a CNBB e o próprio Ministério da Saúde ‘descobriram’ e perceberam que era possível fazer uma revolução social na saúde pública brasileira, a partir dessa modesta e simples estrutura de organização. Nasceram as parcerias até o reconhecimento internacional pela UNICEF, quando as estatísticas oficiais já apontavam para o declínio da mortalidade infantil.
Gilberto Dimenstein, ressaltou outro aspecto. Essa iniciativa da Pastoral, na sua origem histórica, é que deu início àquilo que posteriormente viria se organizar como o Terceiro Setor. Foi essa visão profética e antecipadora de Dra. Zilda que vislumbrou novos caminhos para as ações de políticas públicas. Segundo ele, ela é e será, daqui para frente, um marco e uma referência nesta área.
Lembrou também que Dra. Zilda era uma figura extremamente engajada na vida pública e política do Brasil, na medida em que peregrinava pelos diferentes Ministérios de Governo, em Brasília, no processo de apresentação, justificativa e persuasão dos projetos de saúde pública. Tornou-se uma figura conhecida, respeitada e admirada nos meios políticos de Brasília, sem no entanto, negociar aqueles princípios fundamentais que nortearam sua vida. É de se imaginar o que essa Senhora deve ter passado e testemunhado no convívio com o poder político, movido por outros ideais e interesses. Essa verdadeira cruzada que ela viveu é que deu origem, no Brasil, ao que futuramente viria a se constituir nos agentes de saúde pública, mudando a fisionomia do próprio serviço público.
Um último aspecto destacado pelo citado jornalista. Dra. Zilda não era uma figura popular, conhecida do grande público, porque sua vida e atividade na Pastoral da Criança não eram iluminadas pelos holofotes do marketing e da propaganda. Ela vivia uma vida modesta, intensa, centrada no seu trabalho, longe das badalações sociais das figuras fáceis e efêmeras. Sua energia e suas forças foram consumidas lentamente, na mesma proporção do crescimento de seu trabalho.
Não por acaso, uma vida assim vivida, termina sob os escombros de um país estrangeiro, pobre e destruído pela guerra. Dra. Zilda não estava em campanha política nem em um evento de promoção pessoal no Haiti. Estava em busca da dignidade humana, ferida, machucada, esquecida. E, partiu ao lado daqueles com quem esteve durante toda a sua vida.
Por Frei Regis Daher
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